Chega de catástrofes!
Direto do meu diário: ficar fora da área de cobertura e um apocalipse pessoal.
É estranho… já faz praticamente uma semana que acabou a energia aqui em casa e meu celular ficou sem sinal. Tô sozinha, como sempre, mas dessa vez de um jeito diferente.
Uma solidão pura e completa (quase poética). Nenhuma distração a não ser o barulho da chuva e do vento – que, à noite, é tão alto que chega a me acordar no susto. Percebi que senti mais sono do que o normal e perdi a hora do almoço, também não me importei em tirar o pijama ou pentear os cabelos e a única preocupação foi a preocupação dos outros comigo sem conseguir contato. Li mais páginas do meu livro do que em qualquer outro dia e isso me deu uma sensação boa de realização.
Estar privada de coisas tão básicas e banais do dia a dia me fez pensar no quanto somos dependentes de coisas ridículas. Um celular, um microondas, uma geladeira, um portão, uma lâmpada, um som de gente. Tudo tão chato.
Almocei cereal com leite e morangos, já que o fogão de indução tava fora de cogitação. Deitei no sofá e olhei pro teto por um pouco mais de meia hora, em completo silêncio. Talvez eu precisasse de algum nível de tédio.
Me senti vivendo a vida de um cachorro quando os donos saem de casa. E até que eu gostei.
Qualquer Uma
Segurando uma vela na mão esquerda e meu livro na mão direita, me encontrei me olhando no espelho. No escuro, me dei conta de que eu sou eu. Choque.
A verdade é que se eu não fosse eu, poderia ser qualquer outra pessoa nesse mundo. Então, seria ela. Mas também simplesmente eu.
Não existe uma escolha ou momento de decisão, apenas se vai descobrindo e entendendo: essa aqui sou eu. Uma qualquer que, por ser eu mesma, já não é mais qualquer.
Uma confusão também essa compreensão de mim – às vezes, entendo e outras não. Tenho dias em que me aceito e acolho o acaso, mas também tenho dias em que me odeio e odeio a todos por isso. É complexo não ter quem culpar por algo tão importante.
Penso desenfreadamente sobre quem eu seria se fosse outra e me escapa da mente as infinitas possibilidades. Consigo só imaginar essa daqui que eu já sou há anos. Me imagino brincando de outros personagens que nunca se tornariam pessoas da vida real.
Talvez porque é mesmo impossível me livrar inteiramente de quem me tornei – a ponto de não ter nem a capacidade de tentar ver com outros olhos. Tudo o que tenho e que sempre vou saber ter são esses aqui. Que sempre tive desde que nasci, quando ainda nem sabia quem eu era pra mim.
Quarta-Feira
Quarta-feira é o meio da semana. E sabe me dar tanta alegria quanto Sábado, mas também um tanto de cansaço como uma Sexta-feira. De qualquer forma, pra mim, o primeiro lugar tá sempre entre Sexta e Domingo. Mas o segundo é hoje.
Ontem foi Terça, mas nem parecia. Minha rotina anda tão caótica quanto minha mente. E eu já não posso mais escolher favoritos – todo dia parece meio igual, meio surpresa que ninguém pediu.
Tô com saudade de reclamar de toda Segunda e dar graças à deus que a semana acabou – apesar de não acreditar nele. Quero ver meu próximo dia bem como tá no meu calendário e não aguardar mais nada além disso. Chega de catástrofes.
Eu gosto de fazer a minha Quarta-feira sempre igual, sempre feliz, sempre de esperança. Dessa vez, ando implorando pro tédio não me agarrar à força outra vez, como um homem bêbado vagabundo atrás de um rabo de saia.
Já ficou impregnado em mim esse cheiro de suor de quem passou tempo demais vivendo o fim do mundo. Preciso do meu novo começo antes que o mundo acabe de vez e eu ainda não tenha nem começado.
Test-Drive De Suicídio
Ando num experimento contínuo de me ver indo até o meu limite. Não sei por quem ou quando isso foi decidido, porque só percebi agora.
Hoje, peguei forte as duas pontas dos fios do capuz que cai pendurado do meu moletom cinza e apertei ao redor do meu pescoço com toda a força. Até sentir que meus olhos poderiam explodir do crânio a qualquer momento.
Me faltou o ar e, portanto, a força pra continuar. Continuar não sei o que, nem por que. Um ímpeto esquisito por sentir algo diferente talvez. Um test-drive de suicídio. Não sei responder.
Sei que esse meu ato impensado me deixou pensando: será que eu seria capaz de acabar com tudo num instante tão arbitrário? Ali sozinha, sentada na sala com meu copo de água ainda cheio do lado e meu cachorro roncando. Acho que não.
Mas achar que sim ou que não não me diz nada. Até porque, ninguém faz isso sem estar pensando em coisa próxima, faz? Pode ser que faça.
Apesar que, ainda não acredito que o meu medo de incomodar os outros conseguisse ultrapassar o pensamento de que esse meu possível fim daria um baita de um trabalho. Pelo menos que tenha sido ele e não só a falta de ar. Ou do que fazer.
Ufa, Não Morri
Bater de frente com o meu silêncio nunca foi sinônimo de histeria pra mim. Até passar dias e dias bebendo chuva direto da nuvem e sentindo a ventania correr de um lado pro outro sem ter a menor escolha.
A paisagem cinza, as janelas trepidando, os pingos que mais pareciam pedras caindo. A porta de vidro do vizinho, inclusive, estourou essa noite. Pensei em ajudar, mas não havia nada que eu pudesse fazer – pequena demais pro mundo.
Fiquei fora da área de cobertura e me vi perdida, totalmente louca, insana, falando sozinha. É como se tivesse sido colocada em uma ilha desconhecida e, ao mesmo tempo, estivesse me desconhecendo por inteira também. Um caos interno e quase nada acontecendo ali fora.
Essa madrugada eu tive um sonho: um jacaré aparecia com fome. Não tenho certeza se eu seria o banquete ou o próprio jacaré – decerto meu inconsciente ainda esteja se decidindo –, mas o medo fazia parte igual. Acordei pensando ‘‘ufa, não morri’’.
Mas será mesmo que não morrer era o tudo o que eu precisava dali? Porque, na realidade, eu quero é viver e não não morrer. E essas são coisas bem distintas, pelo menos pra mim.
Meu apocalipse pessoal aparentemente se juntou ao ciclone que passou por aqui e fez tudo cair pra frente, pra trás e pros lados. Sem muita estratégia, só destruição.
Bônus Track
» Uma arte escrita e desenhada por mim, pro @precisaquedesenhe. E um bom motivo pra tu ir lá seguir esse meu projeto – tem posts novos todos os dias.
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Abraço De Despedida
Obrigada por ler até o fim e por estar aqui comigo.
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Nos vemos semana que vem? Espero que sim.




u-a-u. eu amo tanto seus textos! não sei o que faria sem eles e sua arte, então obrigada por continuar, mesmo quando o sentido parece escapar dos dedos <3
Em 'Qualquer Uma' senti uma vibe meio Clarice, em Paixão Segundo G.H., amei