Existe uma vontade insistente, quase abafada, de diminuir outras mulheres que arrebata o mundo dos pés à cabeça. Como se, na queda de uma, nascesse o alívio da outra. Isso todas nós já sabemos bem.
Mas essa vontade não nasce do nada. Ela começa no olhar do patriarcado, que carrega séculos de poder, com tanta potência moldada em pedra e regra, que faz esse parecer o único jeito possível de existir.
O que é feminino é jogado ao chão, tachado de fútil, sujo, menor, exagerado, indesejável. Divas do pop? Música ruim. Livros de verdade? Só se forem escritos por homens. Moda? Tem coisa mais importante. Nomeie três mulheres extraordinárias? “Não sei, pergunta difícil.”
É assim que se constrói o ódio silencioso e que se aprende a se odiar em outras. Mas talvez, o primeiro passo seja entender que esse espelho distorcido nunca foi nosso. E que ele não precisa mais permanecer pendurado na nossa parede.
Fome De Não Sei O Quê
Disseram que é natural, que as mulheres competem entre si porque sim. Como se fosse instinto, como se estivesse no nosso sangue.
Mas não disseram que esse “natural” foi ensinado, repetido e premiado. Disfarçado de elogio, de superioridade, de "você é diferente das outras".
E a gente acreditou. Aprendeu a medir o próprio valor no que falta na outra. A chamar de amiga, mas olhar sempre como ameaça. A se afastar de quem mais poderia nos lembrar quem a gente é de verdade.
É assim que se fica longe – de nós, delas, do que realmente importa. E essa distância tem gosto de vazio. Uma fome de não sei o quê. Acho que fome de liberdade sem comparação, de pertencimento sem disputa, de espelhos que não nos deformem, mas nos revelem.
Enquanto nos distraem com rivalidades bestas e nos fazem acreditar que só tem lugar pra uma, quem lucra é o mesmo de sempre. O sistema que nos quer ocupadas demais tentando vencer umas às outras pra não perceber que nunca foi sobre vencer — foi sobre dividir.
Porque mulher dividida não dá trabalho, não faz revolução, não percebe o próprio poder. Mas e se a gente parasse? De competir, fingir, de repetir esse roteiro escrito por mãos que nunca foram nossas.
Possivelmente, aí, a gente finalmente alimentasse essa fome antiga de ser inteira. De ser livre, de ser com as outras. E não contra elas.
A Amiga Que Queria Ser Eu
‘‘É um inferno de responsabilidade ser você mesma. É tão mais fácil ser outra pessoa ou então absolutamente ninguém.’’
– Sylvia Plath
Por que toda mulher já teve uma amiga que, no fundo, não queria tá ali do seu lado, queria tá no seu lugar? Não era amizade, era desejo disfarçado. Não de afeto, mas de reflexo.
Ela não te queria por perto. Queria a tua pele, tua voz, teu sorriso. A forma como tu existia com uma liberdade que talvez ela nem sabia que era possível.
É uma relação estranha, muito esquisita mesmo. E, ainda assim, comum demais. Tão comum que dizem "Ah, acontece! Todas já passaram por isso." Mas não tem nada de normal nisso.
É o sintoma de algo bem maior, de um sistema que quer todas iguais, presas na mesma forma. Medindo o próprio valor pela diferenças.
Nos ensinaram que só tem espaço pra uma. Uma bonita, uma inteligente, uma estilosa, uma engraçada. E o resto precisa se espremer até caber – se é que vai conseguir um dia caber.
Mas quem disse que só cabe uma mulher brilhante por vez? Quem inventou que ser a gente mesma é um erro e que ser ninguém é mais seguro?
A verdade é que descobrir quem se é dá muito trabalho. Dói, assusta e ninguém oferece tempo, apoio ou fé suficientes pra que a gente se descubra sem medo e sem freio.
Então, ao invés de olhar pra dentro, acaba se olhando pra fora. Se escolhe uma amiga e tenta se tornar ela com todas as forças. Como se a vida dela fosse mais suportável. Como se a liberdade dela fosse um caminho mais curto pro sucesso de ser uma mulher gostável.
Mas ser outra nunca salva, só adia o encontro – com a mulher que a gente poderia ter sido, se tivesse olhado pra dentro primeiro.
Quem Inventou A Inveja
De onde vem a inveja feminina? Talvez de um lugar mais fundo do que a gente costuma admitir. Da insatisfação, de não saber e nem poder se divertir, da exaustão.
Existe um ciclo, com um veneno sutil. Fazem a mulher infeliz pra que ela espalhe a infelicidade sem nem perceber. Pra que ela olhe pra outra não com admiração, mas com desconfiança. Com aquele incômodo que não tem nome, mas arde fundo.
E assim, seguimos. Juntas, mas umas contra as outras. Buscando uma felicidade que nos prometeram, mas que nunca chega. Porque ela tá sempre atrelada a um “se”: se for mais bonita, mais magra, mais bem sucedida, mais única — mas, ao mesmo tempo, mais discreta –, mais dentro da norma, mais conformada.
Nos colocaram pra correr atrás de um molde que não existe. Só que o prêmio é solitário, vazio, e nem de longe vale o desgaste.
A inveja não nasce do mal, ela nasce do medo. Da fissura de não se sentir suficiente, do cansaço de tentar ser perfeita. E ainda assim falhar miseravelmente.
E nisso tudo, quem vence? Quem lucra? Quem assiste de longe enquanto a gente se engole viva? É o mesmo de sempre: quem sabe que mulher forte,
conectada e feliz não é fácil de dominar.
Mas a verdade é que não se pode lutar com alguém que tá em paz com quem se é. Que se curte, se ama e estende a mão pra outra, ao invés de levantar uma parede.
Quem inventou a inveja sabia muito bem do que a gente seria capaz se parasse de se mirar com olhos de guerra e começasse a se enxergar com olhos de amor.
Maior Medo E Maior Amor
Conversando com as minhas amigas e lembrando das várias amizades difíceis que eu vivi na adolescência, me dei conta de que viver uma relação entre mulheres pode ser o maior medo e, ao mesmo tempo, o maior amor que existe.
Tem algo de vertigem nisso. Uma lembrança amarga do que já me doeu, das amizades que machucaram mais do que curaram. E por isso, muitas vezes, a gente se aproxima com o pé atrás, com a mão meio gelada e o coração em guarda.
Mas se deixar fluir, um dia, acontece. Se encontra aquela amiga – ou duas, ou três, se tiver sorte – e bate diferente. Porque não tem comparação, não tem disputa, não tem medo de brilhar perto. Pelo contrário, ela quer te ver brilhar ainda mais.
Amizade assim é colo sem cobrança, conversa que te reconstrói. Silêncio confortável e uma troca de dores que ninguém mais entenderia. É uma certeza tão maior do que se pode explicar.
Amar mulheres, como amigas, é descobrir que o mundo nos mente demais. Que mulher não é rival coisa nenhuma, mulher é casa. E que as presenças femininas nos preenchem de um jeito que nenhuma outra poderia.
É claro que o medo segue aparecendo de vez em quando… feridas antigas ainda latejam. Mas, dessa vez, eu não tô sozinha. E isso muda absolutamente tudo. Porque o amor entre mulheres, quando é leve e verdadeiro, cura o medo que um dia alguém fez questão de plantar entre nós. De graça.
Falhar Não É O Nosso Destino
Numa dessas minhas reassistidas de filmes que me marcaram: Cisne Negro. E pensei comigo mesma outra vez ‘‘Como pode?’’.
Como pode tudo, sempre, ser culpa da mulher? Se ela cala, erra. Se ela grita, incomoda. Se recua, é fraca. Se avança, é demais. Se é alvo, provocou. Se é espinho, é tóxica.
Não existe acerto. Não existe lugar seguro. É uma constante caminhada em areia movediça, tendo que fingir que o passeio tá super agradável.
A gente tenta caber, dobra o corpo, a fala, o sonho. Mas ainda assim, parece errado. Então a gente tenta romper, ser diferente, ser livre, ser ousada, mas aí também é errado. É estranho. É perigoso.
Como saber quem eu sou ou quem eu quero ser, se ninguém permite que eu tente? Se ninguém estende a mão sem querer me moldar? Se ninguém me oferece espaço que não seja uma possível armadilha?
O que se pede é tão simples: o direito de existir sem medo, de não estar constantemente buscando ser a mulher certa, na hora certa, do jeito certo. Mas essa régua muda todo dia e esse jogo é viciado.
A gente cresce ouvindo que ser mulher é carregar culpa antes mesmo de ter um nome. E o próprio filme mostra isso de forma devastadora:
“Você poderia ter sido brilhante, mas é uma covarde.”
É o que dizem… mas nunca nos deram coragem, só medo. Nunca nos deram asas, só espelhos quebrados. E mesmo assim, mesmo tremendo, mesmo com dor, a gente continua.
Isso, porque ser mulher não é sobre acertar. Mas resistir, a cada dia, à ideia de que falhar é o nosso destino.
Bônus Track
Uma arte escrita e desenhada por mim, pro Precisa Que Desenhe. E um bom motivo pra tu ir lá seguir esse meu projeto – tem posts novos todos os dias.
Abraço De Despedida
Obrigada por ler até o fim e por estar aqui comigo.
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Nos vemos semana que vem? Espero que sim.



Que coisa linda esse texto, foi como um abraço! Ser mulher já é tudo e é grandioso
você me fez pensar em todo esse movimento da influência na internet… a urgência de quem segue famosas em querer saber de tudo que elas gostam, vestem, leem, assistem, consomem… e fazer tudo igual. uma grande vitória compartilhada entre a indústria cultural e o patriarcado 🤡 entendo que faz parte da condição humana a mimese pq é assim que se constrói sociedade, mas acho que tudo isso tem virado muito mais uma emulação de comportamento do que um mimetismo. e só piora quando a grande maioria de quem tá na internet criando conteúdo só quer seguir trend mesmo. como você disse, descobrir quem a gente é dá trabalho demais. muito mais fácil se camuflar num coletivo que já existe. mas o preço disso é alto, na minha humilde opinião. perturba a minha paz muito mais do que se sentir deslocada na maior parte do tempo… enfim, já tô falando demais aqui kkkk gosto muito dos seus textos porque alimenta esse meu vício de pensar 🖤