Não ser nada além de um ser humano que faz.
Acreditar que eu sou capaz, sair da inércia, sentir a dor do parto e simplesmente criar.
Desde que me sinto uma presença nesse mundo, carrego um medo que me pesa assustadoramente: o de não sair do lugar. Literal e metaforicamente.
Um receio denso de não conseguir fazer, não jogar pro mundo, não tirar do papel, não dar a cara a tapa. Medo de não me ver existindo em movimento.
O problema é que ele bate de frente com outro: o pavor de me arriscar demais tentando. De pensar que talvez (só talvez) teria sido melhor nem ter tentado.
Sou feita dessa dança tensa entre o ímpeto e a hesitação. Uma mistura de medos, vontades e verdades que moram dentro de uma criatura que nunca quis ser nada além de um ser humano que faz. Um caos muito pouco organizado pro meu gosto, inclusive.
Quando eu boto a mão na massa, sinto que eu existo inteira. Quando ouço meu pensamento tomar forma, eu respiro melhor. E, às vezes, tudo o que preciso são trinta segundos de coragem pra mergulhar fundo.
Outro dia, mexendo num caderno antigo, atrás de uma história específica, encontrei outra. Um pedaço de mim, escrito numa manhã nublada e fria do inverno holandês, em meio ao meu burnout. Tinha sido forçada a pausar tudo e descansar, mas como a cabeça seguia acesa e fervendo ansiedades, escrevi:
Coragem tem o mesmo rosto do medo.
Que tem o mesmo cheiro da dúvida.
Que tem a mesma força do desejo.
Me peguei pensando ‘‘por que será que ninguém nos ensina que a coragem e o medo são, no fundo, a mesma sensação?’’. Acho que se eu pudesse ter entendido isso antes, talvez não tivesse deixado passar tantas chances de me mostrar mais inteira, de fazer mais por mim.
As dúvidas e os desejos são inevitáveis e potentes o suficiente pra nos orientar a decisões incríveis ou escolhas desastrosas. E aprender a me deixar liderar mais com a coragem e através dos meus desejos, ao invés de travar nos medos e nas angústias, pode mesmo, no fim das contas, me permitir cada vez mais simplesmente fazer.
Criar Mais, Consumir Menos
Como já dizia Gore Vidal, ‘‘the unfed mind devours itself’’. A mente não alimentada termina por devorar a si mesma.
Demorei muito pra entender essa verdade e, quando enfim entendi, quis voltar no tempo. Resgatar as horas que deixei escapar me devorando em silêncio, quando tudo o que eu precisava era criar.
Cresci numa casa onde ninguém tinha hobbies, onde a curiosidade sobre si próprio era muito pouco alimentada. Foi só na vida adulta que fui perceber: eu sou bem melhor pra mim (e pros outros) quando mergulho de cabeça no que realmente me move.
Hoje em dia, me vejo como uma coleção de universos que me fazem mais feliz. Meus hobbies são meu mergulho profundo, mas também o que me faz dar pé.
Entre eles, dos mais recentes, são minhas colagens digitais – é como se eu tivesse acesso a todas as revistas do mundo, prontas pra serem recortadas, reposicionadas e reinventadas. Minhas habilidades no Photoshop têm ficado cada vez menos piores e isso também tem deixado as coisas mais divertidas, admito.
E, no fim das contas, o que importa mesmo é isso: usar a energia criativa e humana pra fazer, ao invés de só assistir. Criar é poder me reconectar com pedacinhos especiais de mim que vivem no mundo real e, ao mesmo tempo, num mundo que é só meu.
Fazer é um jeito delicado de resistir ao ritmo frenético do mundo e afirmar presença onde tantas vezes me anulei. Me devolver pra mim mesma.
Eu sei que criar mais e consumir menos não é uma filosofia otimista, simplesmente por ser tão urgente. Mas espero muito que essa urgência não nos tire a sensibilidade necessária pra preencher os ruídos. E que não nos faça esquecer que o que preenche de verdade não é o que distrai, mas o que nos obriga a escutar.
Qualificada, Habilitada, Capacitada
‘‘Acreditar na minha capacidade de acreditar que eu sou capaz.’’
Escrevi (e desenhei) isso pra me lembrar que acreditar em mim é um direito meu. E que a minha capacidade não depende de uma fé constante, ela existe eu reconhecendo ou não.
Enquanto que ser e me sentir capaz são duas coisas completamente distintas dentro de mim, de algum jeito, a certeza e a dúvida se cruzam o tempo todo. Como se uma única crença carregasse tanto o início, quanto o fim de tudo. E o meio disso é bem mais complexo do que eu gostaria de admitir.
O medo de errar, a sede por controle, a suspeita constante. A verdade é que não existe diploma, troféu, medalha ou condecoração que vá limpar isso da mente de quem cresceu entendendo cedo demais a ideia de sucesso.
E eu até poderia dizer que a maturidade deixa o volume dessa dor mais baixo, mas é mentira. O que a idade me mostrou foi que eu posso ser qualificada, habilitada, capacitada até o talo. Mas não adianta, o que importa mesmo é se eu consigo me deixar acreditar nisso o suficiente ou não.
Pra Sair Da Inércia
Às vezes, o mais difícil nem é começar. É lembrar por que vale a pena seguir.
Percebi que a minha inércia criativa é uma espécie de melancolia do desejo, uma ausência de direção, misturada com excesso de barulho. Poucas vezes deixei de fazer por pura preguiça, geralmente me pego nesse lugar caótico e aí tento voltar pro essencial.
Por isso, também, que o ócio criativo é tão necessário. Não fazer nada é uma das coisas mais difíceis e incríveis pro ser que cria – é o que nos agonia e o que nos atira a gasolina, já com o fósforo na mão.
Saber desligar o motor quando for preciso, é tão indispensável quanto saber quando girar a chave outra vez pra poder sair do lugar. E, quando tudo parece distante demais, tirar as coisas do papel pode começar com:
Me alimentar de referências.
Mas só as que me provocam a pensar, não a copiar. Não querer me apagar, porque a ideia sempre é me encontrar.
‘‘Dizer o que todo mundo diz é não ter dito absolutamente nada.’’
Escrevi essa frase lá no Precisa Que Desenhe a um tempo atrás e muito da inspiração veio disso: enxergar gente com potencial criativo indo em busca de se apagar copiando os outros, ao invés de querer acolher a sua própria voz. Nunca vou entender isso, sinceramente.
Olhar pro objetivo.
Da forma mais honesta possível, começo pequeno, pra poder começar. Crio metas atingíveis, sob medida pra caber na minha rotina e sem me enganar com o tamanho do meu ego.
Lembrar o que me move.
Esses dias, lendo o ensaio Professions for Women, da Virginia Woolf (inclusive, recomendo), me peguei lembrando do quanto já foi difícil (e ainda é) pra tantas mulheres simplesmente se colocarem no mundo. Então, parar pra relembrar o que me move e do porquê de eu estar fazendo isso é algo que me dá forças pra continuar.
Fazer.
Mesmo confusa, mesmo sem ideia, mesmo no barulho. Sentar e fazer.
Porque sair da inércia também é confiar que o movimento vem depois da minha decisão e não antes.
A Dor Do Parto
Algo que escrevi sobre sentir as dores de quem cria, mesmo sem nunca ter sido mãe:
Botar as coisas no mundo dói demais, porque vai muito de mim naquilo. É assustador me expor e ser tão vulnerável por opção própria. É o mais perto da beira do precipício da loucura que eu já cheguei – e, ainda assim, eu pularia de novo. E de novo. Pelo resto da vida.
Dói não só por isso, mas também por ter que aprender, na marra, a me soltar daquilo que um dia já foi só meu. Ver minha criação pelo mundo sendo absorvida e transpassada por aí, de mil e uma formas – jeitos que eu tenho zero controle sobre.
Passar meu filho de mão em mão, sem nem saber se são dedos ou garras. Deixar meu recém nascido viajar sozinho e visitar diferentes casas, se encontrar em diferentes almas.
Saber que eu posso ter doado tudo de mim praquilo, mas, a partir do momento em que eu decido dar à luz, ele nunca mais volta a ser como era antes. Nunca mais volta a ser só meu.
Isso dá medo e muda tudo. Mas, no mesmo tanto que dá medo, também dá coragem.
A Artista Está Presente
Pra quem não sabe, há anos, eu tenho Marina e Ulay tatuados no meu braço direito. Não tem exatamente a ver com essa performance específica, mas tem tudo a ver com a forma como eu enxergo arte.
The Artist is Present foi uma performance da Marina Abramović em 2010, no MoMA. Nessa obra, ela se senta imóvel de um lado da mesa, enquanto estranhos se revezam na outra ponta. E tudo o que se faz ali é se olhar, em silêncio.
Uma troca que, à primeira vista, pode parecer simples. Mas não é. É alguém que, criando e fazendo arte, se entrega inteira. Que, só por estar ali, parada, se mostra corajosamente viva. Humana, vulnerável, presente.
Eu sempre tive uma obsessão forte pela arte da Marina. Por ser tão crua, áspera, sentida e completamente doida. Assim como sempre enxerguei quem a gente chama de ‘‘artista’’ como alguém muito distante de mim. E gente que parece habitar um outro lugar no mundo sempre me chamou muito a atenção, quase que num nível irracional.
Até que, aos poucos, comecei a perceber que, em parte, eu também era uma dessas pessoas. E já fazia tempo. Mas a minha dificuldade de me jogar, de fazer, de acolher o meu lado artístico sempre existiu por medo.
Artista, eu? E se eu não for boa o suficiente? E se o que eu fizer nem der pra ser chamado de arte? Será que eu mereço ser vista simplesmente pelo que sai de dentro de mim, assim, dessa forma tão despida? Eu não deveria estar me sacrificando mais pra receber isso em troca?
Tudo isso me fez pensar até que ponto a gente enxerga a arte, e o ato de fazer arte, como algo espontâneo, incontrolável, quase que inevitável. Ou então, como algo mágico, inalcançável e reservado pra poucos – uma espécie de privilégio raro, que só acontece com quem nasceu pra isso.
Eu não tenho resposta pra nenhuma dessas minhas perguntas. Só sei que fazer arte é minha nova proposta pra mim mesma. E não pra alcançar nada, mas pra existir de um jeito que me faça mais sentido.
Acredito mesmo, que essa deveria ser a proposta de todos nós: criar do próprio jeito, ser artista do próprio jeito. Porque estar presente, por si só, já é um ato de criação.
Como disse Clarice, agora eu também posso dizer: depois do medo, vem o mundo.
Bônus Track
#1: Uma arte escrita e desenhada por mim, lá no Precisa Que Desenhe. E um bom motivo pra tu ir lá seguir esse meu projeto – tem posts novos todos os dias.
#2: A última edição do projeto ‘Queria Falar’ lá no meu canal do YouTube pra tu assistir – sai um novo toda Segunda-feira (e um vlog toda Quarta-feira).
Abraço De Despedida
Obrigada por ler até o fim e por estar aqui comigo.
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é curioso e reconfortante descobrir que quem a gente admira também sente medo de se expor, mas vai com medo mesmo.
vou reler tuas palavras pra me ajudar a dar esse primeiro passo e finalmente entregar meu filho pro mundo. adorei o texto, nati. continue criando e sendo a artista que tu é.
Aula de coragem na sexta feira de manhã!