Poder ser amada e odiada na mesma proporção.
Perder o medo de lançar meu feitiço, transcender os encontros e reviver meus sonhos.
No final de semana passado, usei meu tempo livre pra maratonar a série Dias Perfeitos (a adaptação do livro do Raphael Montes). Além de ter sido completamente sugada pelo enredo, me peguei pensando nas tantas versões de nós mesmos que andam soltas por aí — habitando o imaginário dos outros.
Téo, depois de um único encontro com Clarice, cria uma personagem dela dentro dele. Acrescenta desejos, gestos e intenções que ele mesmo inventa, e acredita serem reais. A partir disso, se constrói uma história de amor que nunca existiu fora da cabeça dele. E isso me deixou inquieta.
Quantas versões de mim já não existiram na mente de outras pessoas Algumas até reconhecíveis, partes que realmente entreguei em algum momento. Mas, ao mesmo tempo, outras que nunca nem existiram de verdade, só foram fabricadas naquele universo específico de quem acreditou que me conhecia. Acho doido.
Alguns anos atrás, só de alimentar esse pensamento, eu já estaria à beira de uma crise. Sempre tive medo do que os outros poderiam criar de mim. Nunca gostei da ideia de ser mal interpretada ou rotulada de um jeito que não fazia sentido pra mim.
Mas isso é impossível, inevitável – e mais do que isso, é libertador aceitar tal inevitabilidade. Com o tempo eu fui entendendo que quanto mais eu abria mão dessa vontade louca de controlar o pensamento de outras cabeças que não a minha, mais eu ganhava força dentro da minha própria. Entendendo que aceitar transcender os encontros com outros mundos pode ser o jeito mais bonito de me apresentar. Deixar a minha imagem transitar por diferentes personagens e histórias que talvez nunca vão ser minhas.
Não que isso seja algo fácil. Eu não sinto o menor prazer em ser a vilã de algumas histórias ou a vítima de muitas outras. Mas o que mais me interessa, no fim das contas, é saber contar o que eu tenho pra contar, com as minhas próprias palavras e a visão que eu mesma tenho de mim.
Talvez seja essa a forma mais honesta que encontrei de habitar o mundo:
permitir que me inventem, que eles possam fazer o que quiser de mim — e ainda assim, permanecer inteira pra quem mais me importa: eu.
Perder O Medo De Ser Odiada
Se o que eu penso te afasta, que assim seja. Prefiro mil vezes o silêncio da distância ao buraco fundo de ter que baixar a minha voz (de novo). Nunca mais. Nunca mais.
É aquela velha história: quem fala o que quer, ouve o que não quer. Mas o tal do people pleasing é tão sacana, que no fim ninguém mais fala o que realmente quer. Ninguém mais sabe pedir. Nem impedir.
Eu tenho uma queda por gente que não faz rodeio: que ouve meu convite e responde com um “prefiro outro lugar” ou “eu não como isso”. Gente que diz “não tô a fim de sair hoje” e mesmo assim agradece por eu ter lembrado. Gente que diz que a piada não teve graça. Que ficou incomodada.
Acho tão bonito quem não tem medo de incomodar só por estar sendo sincero. Tem algo de exuberante em quem sabe dizer “não”. É um sinal que se acende em mim, um convite pra conhecer mais de perto.
Talvez porque eu ainda esteja aprendendo como fazer isso – tô na metade do caminho, testando jeitos, tentando praticar o que antes vivia só preso na minha garganta. Ou talvez porque estar perto de quem não finge, me dá mais tranquilidade pra existir sem medo. Me sinto segura com quem não vive pra agradar.
E por mais estranho que pareça, eu não gosto quando tentam me agradar. Fico com os dois pés atrás. Sinto que querem me conduzir sem que eu perceba. Não consigo relaxar nem me abrir.
Não é que eu queira ser desagradada — claro que não. Mas prefiro sempre a verdade crua, do que aquele agrado plástico da mentira. Minha cabeça neurodivergente funciona melhor assim: preto no branco.
O mais louco de tudo é que eu já fui o contrário disso, eu cresci sendo aquela que falava tudo o que dava na telha. Mas o mundo foi me ensinando a desaprender. Me chamavam de exigente, chata, inconveniente, mimada. Quando, na real, eu só tava dizendo a verdade… coisa rara, aparentemente.
Hoje eu entendo: quem ganhava com a minha falta de limites eram justamente os que mais os ultrapassavam. E é por isso que agora, quando imponho um limite, quero que fique claro:
Não deixei de amar ninguém. Só deixei de me abandonar pra caber. E tô aprendendo, enfim, a ser um pouco mais odiada.
Lançar O Meu Feitiço
Às vezes me sinto como uma bruxa, prestes a lançar o meu feitiço. Mas logo paro e seguro aqui dentro o que poderia muito bem ser compartilhado com o resto do mundo. Não sei o motivo ao certo, tenho só o palpite de que é medo de ser amada.
No fundo, quero tanto me permitir existir com mais orgulho, sem acender vela pra altar nenhum que não seja o meu. Abrir espaço dentro de mim e ver que o encanto também mora aqui — quando escolho por mim e pra mim, sem mapa alheio pra me guiar.
Me desejo tanto deixar de temer o incômodo de simplesmente ser, de buscar aplausos como quem precisa respirar. Parar de pedir licença pra ser quem sou e, enfim, me permitir ser amada e odiada na mesma proporção — sem desmoronar.
Quando eu lanço o meu feitiço, não existem mais encontros que me apaguem. Nem sonhos adormecidos por falta de espaço. Eu mesma me provoco, me lembro, me refaço. E isso é pra ser o suficiente.
Eu sei que assim, eu me abraço inteira: nas falhas que me fazem ser e viva, nas versões que me antecedem, nos ciclos que me transformam. E descubro, com a força mansa de quem já se perdeu e voltou pra si, que a magia real começa no exato momento em que eu paro de tentar me conter e passo a me lançar.
Reviver Sonhos
Quando eu era pequena, eu sonhava em viver cercada por animais e dançar o dia inteiro. Sempre foi como se o meu corpo soubesse falar antes das palavras.
Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu respondia com a certeza mais inocente do mundo: de dia, veterinária; de noite, do circo. Como se fosse simples assim: amar os bichos, encantar plateias, e dormir com glitter na pele e grama nos pés.
Hoje eu entendo: o que eu queria mesmo era estar longe de tudo e todos que me faziam duvidar de mim. Longe dos olhares que me mediam, das expectativas que me apertavam, das vozes que diziam quem eu deveria ser.
Os animais sempre me aceitaram. A arte também. E ali, no meio deles, eu também me aceitava. Me sentia eu mesma, sem precisar roteirizar nada.
Talvez por isso, ainda hoje, eu siga buscando esse lugar onde eu possa ser inteira. Mesmo que as acrobacias aéreas tenham ficado lá em 2019 e que a ideia de virar veterinária tenha ficado pelo caminho (depois que descobri que desmaio só de ver sangue). A verdade é que meus sonhos antigos ainda vivem nas escolhas que eu faço no agora e são formas lindas de me lembrar quem eu sou.
E de vez em quando, num passo de dança no meio da sala, num carinho trocado com um bicho ou numa criação que nasce das minhas próprias mãos, eu sinto um gosto bom de infância voltando. Uma sensação de sonho (e essência) que não morreu.
Aguentar O Tranco
Pra mim, ninguém sabia tão bem aguentar o tranco de se amar por inteira como Rita Lee.
Ser uma mulher, em uma sociedade onde os amores reais mais existem entre homens do que qualquer outra coisa, é um peso que é necessário aprender a carregar por toda mulher que tenha vontade de ser e viver além do mínimo que nos é imposto. E Rita sabia disso tão bem.
Fazer o seu auê e depois pedir desculpa, se entender como a ovelha negra da família e estar nem aí pra isso. Ao mesmo tempo, ser neném e só sossegar com beijinho, e ter a sabedoria de que amor é pra sempre e sexo também.
Ela sabia ser do jeito dela e isso sempre me seduziu. Morro de orgulho e abro um sorriso imenso toda vez que Arthur me diz que eu sou totalmente doida e que vou com certeza ser uma velha muito Rita Lee das ideias. É bem isso que eu quero pra mim.
Sempre digo que gosto de gente que não sorri quando não tá feliz, que não vai porque não quis e que não mostrou o dedo do meio por apenas um triz. Bancar quem se é, na frente do mundo todo e de absolutamente ninguém, é o tipo de paz mais importante pra mim. Bater no peito e dizer ‘‘sim, é isso aqui mesmo que eu sou’’, mesmo que nem sempre eu concorde comigo mesma.
Saber acolher as minhas loucuras, por mais esquisitas que elas sejam. Dar espaço pra me olhar nos olhos e dizer ‘‘que merda que tu fez, hein?’’ e continuar me amando mesmo assim. Ter força suficiente pra pedir o que eu quero pedir, exigir o que eu preciso pra existir, fincar pé na minha humanidade.
Que a gente possa ser cada vez mais Rita Lee das ideias.
O Meu Próprio Voyeur
Tem um verso do poema You Fit Into Me, muito conhecido inclusive, da Margaret Atwood, que diz:
"Você é uma mulher com um homem dentro observando uma mulher."
E só essa pequena parte já diz muito. Sobre como nós, mulheres, acabamos nos tornando os nossos próprios voyeurs, julgando cada passo dado. Como todas carregamos em si mesmas (em termos psicológicos, sociais e culturais) homens aqui dentro.
A ideia de que existe um ‘‘homem interior’’ que me olha e olha outras mulheres ao meu redor com esse olhar externo, distante e avaliador me despedaça. Mas é a mais pura verdade. Não existe mulher que não tenha vivido pra performar.
Ser mulher, muitas vezes, não é só existir ou ser. É viver sendo observada, inclusive por si mesma, através desses olhares masculinos internalizados. É aprender a se ver como um homem vê: julgar beleza, gesto, comportamento. Ser objeto de desejo, de crítica e de controle.
E é tão difícil sair disso. A gente é tão bem disciplinada a ser vigiada, que quando se perde a ingenuidade e a espontaneidade que toda menina tem, somos acusadas de sermos corrompidas, inautênticas, insípidas.
Tão corrompidas, inautênticas e insípidas, que buscamos mudar tudo. O cabelo enrolado fica liso, a comida vira inimiga, a maquiagem se torna máscara e a busca por validação só cresce, junto com o número de sentenças que o grande conselho arbitrário oferece – magra demais, gorda demais, feliz demais, confiante demais, alta demais, pequena demais, revoltada demais, tudo demais. E, ao mesmo tempo, cada vez menos si própria.
Eu não quero mais ser o meu próprio voyeur, cansei de performar já faz tempo. Será que é também demais querer só existir?
Bônus Track
#1: Uma arte escrita e desenhada por mim, pro Precisa Que Desenhe. E um bom motivo pra tu ir lá seguir esse meu projeto – tem posts novos todos os dias.
#2: Um vlog sobre criatividade, lá do meu canal do YouTube, pra tu assistir – sai um novo toda Quarta-feira (e um novo episódio do projeto Queria Falar toda Segunda-feira).
Abraço De Despedida
Obrigada por ler até o fim e por estar aqui comigo.
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Nos vemos semana que vem? Espero que sim.




acho fascinante como você me abraça com as palavras
Amando tanto te ler 🥹🫶🏼 brigada por mais um texto amiii